Traumatizado e demitido, repórter detona RecordTV: "mente ardilosamente"

Por: Redação, 16/01/2017, 14h08
Luiz Barbará
Luiz Barbará, que era repórter especial da RecordTV Rio Grande do Sul, conhecido por fazer matérias para o "Domingo Espetacular", ficou sem trabalhar por um mês com laudo psicológico por conta de um trauma que passou. O profissional foi vítima de cárcere privado durante uma investigação jornalística e a empresa, segundo ele, negou-se a ajudá-lo depois do ocorrido.

Na semana passada, Barbará foi um dos demitidos pela afiliada da RecordTV e fez um desabafo em suas redes sociais sobre toda a situação que passou na emissora. Leia na íntegra:

“Desculpem o desabafo. Mais uma vez. Mas é que tá doendo demais. Muito. Não é rebeldia. Não é recalque. Não é ódio. É dor. Muita dor.

Saí de Uruguaiana com 17 anos focado em ser jornalista e dar o maior orgulho possível pra minha família. Hoje, me sinto envergonhado toda vez que minha mãe e minha irmã me pegam chorando ou desiludido com tudo isso que está acontecendo.

Dei o meu melhor em todos os lugares em que eu trabalhei. Passei pelos principais veículos de comunicação do Brasil. Fui morar no interior do RS, fui para o Rio de Janeiro, voltei para Porto Alegre, por aí vai, sempre em busca da minha realização.

Me entrego ao máximo. Busco o melhor. Mas também exijo ser bem tratado. Exijo dignidade. A TV Record RS não foi digna comigo. 
É um lugar, sim, onde recebemos oportunidade de trabalhar, ganhar nosso sustento e tentar sobreviver nessa selva jornalística. Mas é uma selva cruel.

Até agora eu vinha tratando dentro do possível essa emissora com o respeito que achava que cabia. Obviamente por ser a empresa que sou contratado, mas principalmente pelas várias pessoas que admiro, sou amigo e tenho um carinho enorme que estão lá.

Só que o meu limite de zelo acaba quando a mentira só cresce. A TV RECORD RS MENTE. Mente feio. Mente ardilosamente. Eu não posso mais ficar agindo com tranquilidade quando além da falta de verdade, há falha jurídica, há maldade.

Não posso mais ser complacente com uma empresa com gestor que comete crime. Não posso aceitar que um diretor de uma empresa me receba com segurança para me expulsar de um lugar que me dediquei tanto e jogue no chão um documento que levei.  Covardes.

Eu não posso mais ficar calado e respeitoso diante dessa gente que eu arrisquei a vida e virou as costas pra mim.

E essa gente, meus caros, como vocês sabem pertence á uma Igreja. Igreja Universal, essa mesmo. Que prega misericórdia, faz milagres…

Hoje, eu também me sinto completamente envergonhado por ter feito parte disso tudo. De certa forma fui cúmplice da barbaridade do dízimo das pessoas doentes e pobres, do preconceito de escolhas pessoais, da censura, da intolerância religiosa.

Que vergonha.

Tenho vergonha de uma empresa que desrespeita a justiça. Sim, a minha “demissão por justa causa” é completamente injurídica. NÃO TEM VALIDADE LEGAL.

Ou vocês já viram alguém com atestado médico e com perícia marcada ser demitido? NÃO EXISTE. Só para os criminosos da Record.

Mas tu é louco de escrever isso? De comprar essa briga? Não. Talvez seja a atitude em mais sã consciência que já fiz. Estou sendo verdadeiro comigo.

Não é só uma questão de coragem. É de honestidade. De vergonha cara.

É porque quero honrar todo amor e incentivo que a minha família me deu e me dá. É porque quero que os meus amigos saibam que não me corrompo pra nada, nem pra “água sagrada”.

Tá doendo. Dói muito. Arranjo na escrita um jeito de diminuir isso. Meu antídoto pra sofrimento sempre vai ser me expressando. Achem certo ou não. Aprendi com isso tudo que nessas horas a gente não precisa de gente pra julgar, e sim pra apoiar.

Porque não há nada de criminoso um funcionário querer melhores condições de trabalho. Lutar pelo o que é de direito.

E vou continuar lutando. Muito. Na justiça. Na minha forma de se expressar.Vou lutar.

Se nenhuma palavra minha servir, se a justiça não for cumprida, vou acreditar no tempo.

Talvez Dom Quixote tenha me inspirado um pouco hoje, depois que a minha amiga Lúcia mandou essa passagem da obra de Cervantes: “Só é humilhado, quem se sente humilhado”.
Não vou me humilhar. Vou falar o que sinto.

Dom Quixote em um momento da vida se deu conta que não era um herói. Viu que não há heróis.

Há homens de carne, osso, sangue. Homens que choram e sofrem em busca do bem.

Que desabafam”.


Entenda o caso
Luiz, à mando da Record Rio Grande do Sul, foi investigar, na capital Porto Alegre, os casos de presos e condenados pela Justiça que, em vez de trabalhar durante o dia, farreiam.

Durante a investigação, Barbará e sua equipe foram trancados por cerca de uma hora pelo dono de uma fábrica. O repórter foi até o local para obter alguns esclarecimentos, mas acabaram sofrendo vários tipos de ameaças e constrangimentos. A equipe só saiu de lá com a chegada da Polícia Militar.

O repórter, junto com a Record, registrou um boletim de ocorrência. Em choque, Luiz Barbará ainda solicitou auxílio jurídico e proteção da emissora. No entanto, a Record do Rio Grande do Sul negou-se a prestar ajuda.

O canal alegou que não teria responsabilidade alguma, porque o crime foi cometido contra a pessoa, e não contra a empresa - mesmo que o repórter tenha ido com identificação da emissora, como canopla no microfone, carro adesivado e crachá.

Revoltado com o descaso do canal, Barbará estudou com seus advogados a rescisão de contrato. Até o sindicato de trabalhadores do Rio Grande do Sul se movimentou contra o canal. O caso aconteceu em novembro de 2016.
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