Primeiro capítulo de "A Terra Prometida" humilha toda a novela anterior

Por: Guiga Bates, 06/07/2016
Juliana Silveira é Kalési, vilã de "A Terra Prometida"
Nesta terça (05), a Record estreou a nova sequência da saga dos hebreus, "A Terra Prometida", com texto de Renato Modesto e direção, dele, sempre ele, Alexandre Avancini.

Neste primeiro capítulo, a novela começa direto no cerco contra Jericó. Liderados por Josué (Sidney Sampaio), os hebreus dão sete voltas ao redor da cidade. No fim, berram ao som das trombetas dos levitas e milagrosamente as incríveis muralhas da cidade cairão, conta a Bíblia.

De cara, a impressão é que Avancini e a Casablanca tinham largado mão do esquecível lixo tapa-buraco "Os Dez Mandamentos - Parte 2" para investir tudo no primeiro capítulo da nova trama. Em comparação, a qualidade da fotografia, dos ambientes cenográficos, caracterização e trabalho de direção da atual é indiscutível e superior. Mas, primeiro capítulo é sempre primeiro capítulo, por que depois tudo pode desandar. Record, né?

Até este ponto, tudo se mostrou fiel. Referências do texto bíblico apontaram na tela situando o público dos acontecimentos.

Em Jericó...

Enquanto os hebreus marcham em volta da cidade, algumas caras surgem. Do lado cananeu, Juliana Silveira instintivamente roubou a cena como Kalési (cópia barata da série GOT). Uma pena que seu texto ainda é fraco e repetitivo, exemplo: "esses hebreus nojentos". Aff! Contudo, a atriz facilmente desbanca as vilãs anteriores. Aponto logo: Igor Rickly (rei Marek) deverá ser a grande decepção, canastrão que só!

Lá no acampamento, um grupo de mulheres hebreias batem papo esboçando preocupação com os homens em batalha. E novamente o grande mal das novelas bíblicas do canal: reunir uma congregação inteira para cada um falar um pouquinho do texto didático, desnecessário.

Não entendi o papel da Cristiana Oliveira. Mulheres dos tempos bíblicos não eram participativas nos assuntos de guerra e sua personagem lá, como se fosse uma comandante excluída e subversiva.

Sim... Os hebreus e o eterno exército pobre, fake e mal na montagem (das cenas), finalmente completam a sétima volta, começa a gritaria (fraaaaaca) e as muralhas trincam. Quando o telespectador achou que tudo iria desabar, entra a ousada e interessante cronologia: "Alguns meses antes", e a história retorna de vez ao acampamento. Muita gente soltou um "eu sabia", em sinal de desaprovação. Lembrou o sensacionalismo típico da Record. Cria-se toda uma expectativa e na hora do vamos ver, entra o intervalo comercial ou enrolação. Parecido.

Se o pessoal de casa quer ver a destruição de Jericó, terá que esperar lá pelo capítulo 60. Enquanto isso, personagens e suas respectivas tramas se desenvolverão. Medo! Já deu pra sentir inúmeros romances, intrigas e muita baboseira ocupando a longa fita.

Alguns internautas chegaram a comparar a novela da Record com a série " Game of Thrones". Menos gente, pelo amor de Deus! A piada não teve graça.

Quatro fatos: (1) o primeiro capítulo de "A Terra Prometida" humilha toda a segunda temporada de "Os Dez Mandamentos"; (2) o maior acerto sem dúvidas está no elenco, repleto de ex-globais, a maioria afiados; (3) mas, não creio que daqui para frente a nova empreitada da Record se salve em qualidade; e por último, (4) a emissora já deixou bem claro que não sabe recriar e adaptar uma bela história bíblica em formato folhetinesco por meses a fio. 

Detesto ser assim, mas anote ou pode printar, eu profetizo: novamente vão cagar tudo, questão de pouco tempo. 

Em tempo:

Em entrevista ao UOL, o autor chegou a dizer que o objetivo da novela não é catequisar. Sério? O texto é dominado por frases do tipo "precisamos ter fé em Deus". Como alguém escreve uma novela baseada na Bíblia, onde Deus é força propulsora das vitórias dos hebreus, e ainda querem fugir da questão doutrinal? Impossível. 

O problema é que a mensagem é frequente a ponto de ser maçante para o espectador. Neste primeiro capítulo, por exemplo, por minuto alguém disparava um: "precisamos ter fé em Deus".   

Outra questão: "O público quer entretenimento, diversão, emoção, humor. O desafio é conseguir ser respeitoso à Bíblia e ao mesmo tempo conseguir fazer uma obra ficção", afirmou Modesto. Eis outro problema. Bíblia não é entretenimento, diversão e humor. Pongar para esse lado só piora a situação das novelas da emissora. Resultado: um trambolho mundano/evangélico.
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