Elenco nordestino ajuda a segurar "Velho Chico"

Por: Guiga Bates, 27/05/2016
A paraibana Lucy Alves interpreta e rouba a cena como a forte Luzia em "Velho Chico"
"Velho Chico" pode ter lá suas derrapadas e exageros, mas não podemos ser tão miseráveis e esquecer que, além de ser uma obra de arte da teledramaturgia brasileira, através da novela, a Globo tem dado oportunidade à inúmeros atores desconhecidos mostraram seu trabalho. Boa parte do elenco é nordestino, muitos com experiência no teatro. Está aí um dos segredos da novela manter sua essência, primor técnico e cênico.

Um diferencial, pois a emissora tem costume de repetir quase o mesmo elenco queridinho segundo a escolha e preferência de autores e diretores. O público sempre se estafou com isso. Na trama de Benedito Ruy Barbosa há poucas repetições, tipo um Antônio Fagundes. Em "Velho Chico" há um intercâmbio de atores nordestinos, prática discreta ao longo dos anos.

Uma investida arriscada. E se causasse estranheza? Não causou. Estranho seria escalar uma enxurrada de atores cariocas e paulistas para interpretar nordestinos. Sairia uma patacoada. Desta vez, a Globo soube regrar. Arrumou a imagem da novela com estrelas da casa e segurou o restante com nomes talentosos e desconhecidos. Uma combinação que deu certo.

Lucas Veloso, nascido na Paraíba, tem chamado atenção
por sua atuação em "Velho Chico"
A trama é carregada por rostos pouco ou nunca vistos numa novela global, principalmente na faixa das 21h. Cerca de 60% do elenco é formado por atores nordestinos, o número aumenta quando se trata de participações. Tais atores impõem uma característica mais realista no contexto da trama, estreitando ainda mais a relação com o Nordeste.

Com uma trama ambientada no Nordeste, composto por um elenco numeroso de nordestinos, a prosódia é um dos pontos altos entre o elenco. Até as estrelas globais de outras regiões do país não pecam tanto neste quesito como em outras tramas da Globo. E olhe que não é fácil, o sotaque nordestino é diferente em diversos estados que compõem a região. A homogeneização dos sotaques entre os atores, seja ele nordestino ou não, não é perfeita, mas também não atrapalha. As marcas linguísticas, ou dialeto, são convincentes, sinal de um belo trabalho de pesquisa e preocupação por parte dos autores e direção.

Ainda cabe destacar a oportunidade que o diretor Luiz Fernando de Carvalho concedeu a atores experientes com pouco destaque na TV, como Selma Egrei, Gésio Amadeu, o brilhante Chico Díaz e o falecido Umberto Magnani. 

Além do elenco diferenciado escolhido a dedo (Fagundes é uma exceção), a trama é embalada por uma trilha sonora pra ninguém botar defeito. MPB de qualidade intercalada a cultura nordestina e outros gêneros. Da música de abertura com Caetano Veloso, passeando por Legião Urbana a pulquérrima voz de Maria Bethânia, é música para os ouvidos.

"Velho Chico" tem sim seus defeitos, como qualquer outra. Mas vamos combinar. É preferível a "lentidão", o tradicional, a poesia, o cultural, o suor natural, os discursos ecológicos e o talentoso nordestino do que a saturação do funk, favela, gritaria, tiro, porrada e atores bombas.  

Por outro lado, nem todo mundo aprova "Velho Chico" ou "Velho Chico" não é para todo mundo.
Tecnologia do Blogger.