Se o Brasil fosse pacífico, a Record estaria morta

Por: Guiga Bates, 02/03/2016
Marcelo Rezende, apresenta o "Cidade Alerta", programa com mais de três horas de reportagens policiais
Se vivêssemos num país de calmaria, a Record teria que dar seus pulos para poder sobreviver em meio a concorrência ou senão já estaria morta. A dependência do canal em torno da violência alheia espanta tão quanto ficamos chocados com o aumento da criminalidade no Brasil. A Record desenvolveu um vício por sangue e ao que parece, não terá cura.

Através da cobertura de violência urbana, a emissora dos bispos consegue alcançar excelentes índices de audiência segundo seus padrões (terceira colocada no Ibope e emissora de quinta categoria) e assim atrair anunciantes para manter seus jornalísticos no ar. Aliás, os piores do mercado.

O Brasil oferece o cardápio perfeito para a Record cair de boca e se lambuzar. Está entre os 20 países mais inseguros do mundo. Segundo o relatório "Mapa da Violência 2015", divulgado pela Unesco, quase cinco brasileiros morrem por hora no país, vítimas de disparos de arma de fogo. Considerando dados oficiais de 2012, 42.416 pessoas foram vítimas de armas de fogo no Brasil – uma média de 116 mortes/dia –, das quais 94,5% (40.077) foram resultado de homicídios. Some a esse dados, outros índices de assaltos, estupros e acidentes de trânsito com morte. É mar de sangue.

É com esses números que a Record atualmente se sustenta e vai nadando. O sangue é a característica principal do jornalismo da emissora, se deixar, seria 24h por dia. Para se ter uma ideia, os telejornais da Record ocupam 11 horas da programação diária. Destas, sete horas e meia são preenchidas apenas com reportagens policiais. O telespectador pode vasculhar por noticiário político e econômico e praticamente não encontrará. Achará um pequeno espaço dedicado a esses temas importantes lá no último telejornal da noite.

O povão aprecia notícias. Quando é sobre sangue, melhor ainda. A obscura curiosidade humana para saber quem matou, quem morreu, quantos tiros..., faz com que a emissora invista pesado em programas jornalísticos policiais. Nem os programas de entretenimento escapam de dar destaque a violência. A Record adora uma tragédia. Por falta de uma programação melhor, ela gruda no sangue. 

Até para pequenos casos irrelevantes, como briga de vizinho, de marido e mulher, carro no poste com direito a vítima cheia de escoriações ou bêbado no trânsito, sempre tem uma equipe de reportagem fazendo plantão na porta de uma delegacia para cobrir o fato como se fosse uma coisa de outro mundo. Se você acha o "Cidade Alerta" o cúmulo do absurdo, precisa dar uma olhada nas franquias do programa, espalhadas pelo país em suas afiliadas.

Além de noticiar este mundo cão, o sensacionalismo é incluso. É desnecessário e prejudicial. As pessoas vão se acostumando, achando trivial. Para citar um exemplo, quando um indivíduo é morto a tiros, certas pessoas filmam, tiram fotos para espalhar pela internet e TV local. Ou seja, banalizou. A Record tem contribuído e torna a violência popular e com pinta de celebridade. Não é desta forma que o país deve enxergar a violência. É rotina, mas não deve ser encarada como prática natural. Achar natural é sinal de alerta humano.

Alguns defendem que a criminalidade deve ser exposta na TV a fim de evitar pintar um quadro falso de que o Brasil é um país tranquilo e que por sua vez seria benéfico para expor criminosos no combate a violência quando as autoridades se mostram incapazes. Informar comedidamente é uma coisa, banalizar o fato como a Record faz, é outra.

Em pleno horário de café da manhã, almoço e janta é possível sintonizar na Record e se deparar com imagens e notícias fortes. O Ministério da Justiça não vê isso? Quer dizer que uma novela no "Vale a Pena Ver de Novo" precisa ser editada para se adequar a faixa horária, mas o jornalismo da Record sai ileso? É preciso rever os critérios e fiscalizar este tipo de informação. Crianças adoram o "Cidade Alerta", é o fim.

Em países desenvolvidos, com taxa de criminalidade baixa, a emissora do Edir não teria vez. Teria que mudar toda sua programação em até 100%, ou a Record não seria a Record que conhecemos aqui. O Brasil está longe, bem longe de se tornar um país pacífico. Pau que nasce torto nunca se endireita, infelizmente. 

Neste embalo - visto que não consegue segurar o público de outra forma - a fim de garantir audiência, faturamento e sobrevivência, a Record continuará a se aproveitar da criminalidade e da parcela ignorante do povo sedenta por sangue. É alimentando o povo com sangue que emissora dos bispos continuará viva. 
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